«O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO», de Hermann Hesse

Started by DuxBellorum, March 21, 2009, 10:17:07 PM

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DuxBellorum

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Ã,«O JOGO DAS CONTAS DE VIDROÃ,»
Hermann Hesse

Publicações D.Quixote, Lisboa,

A primeira edição portuguesa deste título é de há quase vinte anos; recentemente a D. Quixote publicou a sexta edição. Não é por acaso que Ã,«O Jogo das contas de VidroÃ,» continua Ã,«vivoÃ,»: eleââ,¬ËœÃƒÂ© considerado um dos romances essenciais da ficção universal do século XXââ,¬â,,¢, informa uma das badanas. Trata-se precisamente da última das grandes obras de Hermann Hesse, que lhe mereceu o Prémio Nobel da Literatura em 1946.

O livro poderia ser hoje ser considerado ââ,¬Ëœheréticoââ,¬â,,¢ se o lêssemos sob o ââ,¬Ëœespírito do tempoââ,¬â,,¢ - do nosso tempo. ââ,¬ËœHeréticoââ,¬â,,¢ porque liberto dos conceitos e dos pressupostos hoje dominantes. E ainda porque ââ,¬Ëœreintegra na unidade do Conhecimento elementos ainda agora dispersos pela análise materialista. O autor já era celebrado, mas com este romance atingiu uma dimensão sublime na forma como reconcilia realidades só aparentemente desconexas e como concebe o reencontro entre a Modernidade e a Tradição.

Servido por um enredo conveniente, o fundo do romance é uma via de superação da mediocridade que sufoca a Cultura e o Espírito contemporâneos. Um tema que surge explícito na Introdução, um ââ,¬Ëœdocumentoââ,¬â,,¢ com funções pedagógicas - O Jogo das Contas de Vidro/ Introdução à sua História num Estudo ao Alcance de Todos. É desde logo neste Ã,«flash-backÃ,» que os séculos XIX e XX  são avaliados numa perspectiva histórica e considerados decisivos nas lutas pela ââ,¬Ëœliberdadeââ,¬â,,¢ do espírito. E mais ainda nos últimos tempos da ââ,¬ËœIdade do Folhetimââ,¬â,,¢, imediatamente anterior à nossa época, em que o espírito gozava  de facto, duma liberdade inaudita e já não mais suportável, na medida em que, tendo-se libertado por completo da tutela da Igreja e em especial da do Estado, ainda não encontrara uma lei verdadeira que ele próprio formulasse e respeitasse, uma autoridade e uma legitimidade nova e autêntica.

O instrumento material e simbólico da ââ,¬Ëœrevolução culturalââ,¬â,,¢ - mais mutação que ââ,¬Ëœrevoluçãoââ,¬â,,¢- assume a forma de um ââ,¬Ëœjogoââ,¬â,,¢- um sistema de signos, de representações e relações mais ou menos complexas que vão envolvendo todos os domínios do conhecimento, tendo iniciado a sua expressão através da Música e da Matemática no seio de uma verdadeira eliteââ,¬â,,¢ intelectual, dedicada à investigação e ao saber. Durante estas décadas de decadência, a cultura não estivera a dormir. Antes pelo contrário, no momento preciso em que declinava e em que (ââ,¬Â¦ ) parecia renunciar a ela mesma, atingia na consciência de alguns indivíduos um extremo grau de vigilância e autocrítica(ââ,¬Â¦) Pequenos grupos isolados, decididos a ser fiéis ao espírito e a usar de todas as suas forças para salvar e conservar um núcleo de boas tradições, de disciplina, de método e de consciência intelectual.

Ao longo das suas páginas o Ã,«Jogo das Contas de VidroÃ,» transmite uma mensagem de Esperança e uma visão libertadora da materialidade e da quantidade como critérios fundamentais da Vida e do Conhecimento. E se é verdade o que afirmou o prémio Nobel da Química de 1989, Ilya Prigogine,
Ã,«um romance é a forma mais perfeita e exacta de descrever uma realidadeÃ,», que esta obra maior de Herman Hesse possa merecer menos o título de ââ,¬ËœFicçãoââ,¬â,,¢ e mais a virtualidade de uma Profecia.


VL (Vítor Luís)